Brasil e EUA ganham com Bush, diz historiador

Daniel Buarque
Published on Wednesday, March 7, 2007
Para Maxwell, historiador em Harvard, negociação ajuda o Brasil. Ele diz que Lula se fortaleceu mesmo sendo ignorado por Bush nos últimos anos.

Os dois países só têm a ganhar com a visita do presidente norte-americano, George W. Bush, ao Brasil, segundo o brasilianista Kenneth Maxwell.

O brasilianista Kenneth Maxwell, historiador em Harvard (foto: Divulgação)Em entrevista ao G1, o diretor do Programa de Estudos Brasileiros na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, falou sobre os interesses envolvidos no encontro entre Bush e Lula. Segundo ele, a desatenção de Washington com o Brasil nos últimos anos fortaleceu o governo Lula, que tem mais cartas na manga que o normal para as negociações que se iniciam agora, mas que devem se consolidar apenas no longo prazo.

G1 – Que interesses o presidente Bush vem defender no Brasil em sua visita desta semana? Kenneth Maxwell - O governo Bush não deu muita atenção à América Latina nos últimos seis anos, ao contrário do que ele prometeu em seus primeiros discursos como presidente. Neste tempo, muita coisa aconteceu. Mais especificamente, Hugo Chávez aconteceu, e isso passou a chamar a atenção dos EUA, que passaram a realmente precisar dar atenção ao continente, e este é um dos motivos que o leva ao Brasil.

Pode-se dizer também que houve uma mudança no Departamento de Estado norte-americano. O grupo que está envolvido na política voltada à América Latina atualmente é mais pragmático do que ideológico, o que é positivo para o continente.

G1 – Existe realmente a intenção de reaproximar os Estados Unidos e o Brasil, a América Latina, ou trata-se de uma viagem de retórica? Maxwell - Bush e Lula têm muitos interesses comuns, que vão além da retórica. É difícil saber se vai sair algo de fato concreto neste encontro, até porque os acordos não dependem apenas dos presidentes, mas dos congressos dos dois países. O mais importante é que este é um passo inicial numa série de acordos bilaterais que vão começar a ser realizados, como já sabemos que Lula vai aos EUA no final do mês. Por enquanto teremos muitas declarações de boa-vontade, mas o concreto deve vir no futuro.

G1 – O Brasil pode se fortalecer no continente, a partir desta visita de Bush? Maxwell - O Brasil tem mais cartas na manga de que normalmente numa relação com os Estados Unidos. Isso vai levar a uma série de acordos bilaterais que vão fortalecer a relação entre os dois países, o que tende a ser bom para o Brasil. Lula não vai querer ser totalmente oposição a Chávez no continente, pois isso traria um clima ruim de inimizades na América Latina, mas vai querer se reforçar como liderança e deve conseguir isso, especialmente na arena econômica. Politicamente, não deve haver uma tentativa concreta de fortalecer a hegemonia brasileira, pois isso só traria um movimento de oposição contra o Brasil dentro da América hispânica.

G1 – Quem ganha mais com a visita de Bush ao Brasil?

Maxwell - A visita de Bush deve ter um impacto positivo para os dois países, mas especialmente para dar mais força ao Brasil nas negociações bilaterais. Os acordos que os dois países vão tentar fechar são longos, demorados, precisam se consolidar. Mas isso tem o lado positivo de ser uma política permanente, que não vai ser alterada daqui a dois anos, quando mudar o governo em Washington. É a primeira vez que os dois países têm interesses a discutir que estão muito além de qualquer presidente, mas ligados aos interesses dos dois países num prazo muito mais longo.

O fato de o governo Bush não ter dado atenção ao continente nos últimos anos fez com que o Brasil se consolidasse como uma referência alternativa no continente, e hoje Lula tem muito mais importância para negociar com Bush sem precisar concordar com tudo que os EUA quiserem impor.

G1 – Alguns críticos de Bush dizem que esta visita à América Latina tem a intenção de tentar diminuir o anti-americanismo no continente. O que o sr. acha disso? Maxwell - Acho que a visita não tem nada a ver com anti-americanismo. Há lugares que odeiam os EUA muito mais de que a América Latina, que pode ser vista como uma região bastante amigável.