Presidente dos EUA chega na quinta a São Paulo para reunião com Lula.
Saiba o que está em jogo nas negociações do Brasil com os norte-americanos.
Quando o presidente norte-americano, George W. Bush, aterrissar em São Paulo, na noite desta quinta-feira (8), Brasil e Estados Unidos darão início a um complicado jogo político que vai muito além da parceria com o etanol.
Segundo cinco analistas entrevistados pelo G1, o interesse de Bush é mais político do que comercial. O norte-americano quer deter o avanço da influência do venezuelano Hugo Chávez nas nações vizinhas e reduzir a dependência americana dos países do Oriente Médio que exportam petróleo.
Já o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está mais interessado em parcerias com os norte-americanos na área comercial -o que incluiria, além da formação de um mercado mundial de etanol (o álcool combustível brasileiro), a reabertura das negociações comerciais mundiais (a chamada rodada Doha).
A viagem ao Brasil é apenas a primeira parada de Bush em um tour de seis dias pela América Latina (veja o roteiro no mapa ao lado).
“Mas desde então muita coisa aconteceu. Mais especificamente, Hugo Chávez aconteceu, e isso passou a chamar a atenção dos Estados Unidos”, diz o brasilianista.
Leia aqui a entrevista completa com Maxwell.
- Articulação anti-Chávez
Para o cientista social Demétrio Magnoli, doutor em geografia humana pela USP, o principal objetivo de Bush é isolar Chávez, seu principal inimigo político na região. “A idéia dele [Bush] é que o Brasil articule com outros países, como Chile, Colômbia e Peru, uma América do Sul não chavista. É um interesse geopolítico, mais do que econômico ou comercial”, disse.
Bush deu nesta semana um sinal claro de que deseja contrabalançar a influência de Chávez na região. Na segunda-feira (5), anunciou um pacote de medidas assistencialistas aos países sul-americanos que inclui US$ 75 milhões para educação, US$ 385 milhões para habitação e até o envio de um navio-hospital, o “USNS Comfort”, para atender populações carentes.
No dia seguinte, em entrevista a jornais latino-americanos, voltou a atacar o presidente venezuelano, acusando-o de ser responsável pelo empobrecimento do país. “Uma indústria dirigida pelo governo é ineficaz e aumentará a pobreza”, disse Bush.
Impulsionado pela alta do petróleo no mercado internacional, Chávez vem patrocinando programas sociais e distribuindo verba aos vizinhos mais pobres. Estima-se que ele já tenha gastado US$ 6 bilhões nos últimos dois anos.
Clique aqui para ler a reportagem do enviado do G1 à Caracas: Gasolina é mais barata que água na Venezuela.
- Influência chavista
Para o norte-americano Larry Birns, Chávez se tornou “o síndico da Rua América Latina”. “A maior parte desses países que Bush vai visitar apóia o venezuelano e seus petrodólares”, disse ao G1.
Birns é diretor do Council on Hemispheric Affairs, instituto norte-americano de pesquisas sobre a América do Sul. Ele não acredita, porém, que as críticas de Bush a Chávez encontrem eco em sua visita ao Brasil. “Celso Amorim [ministro das Relações Exteriores] já deixou claro que o Brasil não vai alienar a Venezuela, que é importante para Lula porque dá credibilidade de esquerda para um governo centrista [de Lula]”, disse.
“Lula fica sempre em cima do muro entre Bush e Chávez. É um ‘abraçador’, que vai abraçar Chávez para fazer as pazes com a esquerda e volta para abraçar Bush e negociar o etanol”, disse Birns. “Eu mesmo já fui abraçado por ele, antes de se tornar presidente”, brincou.
Mais otimista quanto ao que chamou de reaproximação entre os Estados Unidos e a América Latina a partir da viagem de Bush, Peter Deshazo, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, acha que a oposição a Chávez vai ser boa para o continente.
“Nem todos os países podem assumir a postura ultrapopulista de Chávez. Bush vai reforçar a influência norte-americana e tentar mostrar o relacionamento entre democracia e desenvolvimento”, disse ao G1.
Para Birns, entretanto, o motivo central da viagem de Bush pela América Latina não é uma reaproximação real e tem causas internas nos Estados Unidos: aliviar as críticas internas ao presidente norte-americano por causa da guerra do Iraque.
“Essa viagem não é séria, há pouco a avançar na negociação comercial, já que Bush quer proteger os produtores de milho americanos [de onde fabricam o etanol]. A visita de Bush vai ser ignorada pela mídia local. Foi planejada apenas para tirá-lo de casa”, diz Birns.
-
Interesses de Lula
Do ponto de vista brasileiro, o encontro também não deve gerar grandes resultados imediatos, nem ser visto como uma perspectiva de grande aproximação futura entre os dois países, segundo Francisco Alambert, professor de história contemporânea na USP. “Se Bush já não estivesse encarando uma situação de fim de mandato, ele não estaria preocupado em vir à América Latina”, disse, em entrevista ao G1.
Os assessores de Bush já sabem de cor a pauta econômica que interessa ao governo brasileiro: o fim da taxa de importação do álcool (o país paga o equivalente a R$ 0,30 por litro, fora o imposto alfandegário, para entrar nos Estados Unidos) e mudanças que desemperrem a rodada Doha de comércio mundial (que pode reduzir tarifas contra produtos agrícolas exportados pelo Brasil). Mas já adiantaram, em entrevistas recentes, que essas medidas pouco avançarão com a visita de Bush.
Além do protecionismo de Bush aos plantadores de milho norte-americanos, há um outro fator que dificulta avanços na pauta de Lula: essas mudanças econômicas dependem de aprovação do Congresso dos EUA, hoje dominado pelos democratas que fazem oposição a Bush.
O brasilianista Kenneth Maxwell é mais otimista em relação aos resultados práticos da visita. “Desta vez Lula tem mais cartas na manga do que numa relação normal com os Estados Unidos e poderá tirar vantagens financeiras da conversa. Mas ele terá de fazer um malabarismo para não se opor a Chávez nem fazer inimizades no continente”, disse Maxwell.
Discurso verde
Para Alambert, a viagem à América Latina faz parte do “teatro” da oposição entre Bush e Chávez, dirigentes de dois países que têm uma forte ligação econômica no comércio do petróleo, mas vivem fazendo ataques públicos um ao outro.
A “atuação” de Bush, segundo ele, vai incluir o discurso “neoverde”, ambientalista, “que está se tornando muito popular nos Estados Unidos, por mais que ninguém queira mudar seu estilo de vida, que destrói o ambiente”, disse, ressaltando que mesmo o discurso já tem alguma importância na defesa do ambiente.
Num prazo mais longo, entretanto, Alambert acredita que a discussão sobre o etanol pode vir a se desenvolver mais profundamente. “É uma questão que vai precisar ser discutida durante muitos anos, antes de se tornar algo concreto. A visita de Bush não vai resolver nada de imediato.”
